quarta-feira, 24 de julho de 2013

terça-feira, 20 de novembro de 2012

A hipnose das lâmpadas fluorescentes



Eu sou a cidade. Na verdade eu sou um extrato ralo e insosso da cidade. Mas ainda sou a cidade. Sou o registro do inútil e o esquecimento daquilo que é primordial. O ronco do motor e o silêncio falso na hipnose das lâmpadas fluorescentes. Não sou a erva que tenta sobreviver entre as placas de concreto. Essa não sou eu. Eu sou a cerca, o arame, o muro e também o concreto. Sou esteira e arrasto. Sou fio, cabo e corda. Papel, poeira e pólvora. Não adianta entender a natureza sem me entender a mim. Eu sou a água suja que escorre pelo ralo. Sou a fumaça da ponte, do exautor e do cigarro. Eu bebo, fumo e cheiro. Eu sei, eu sou a cidade.

O olhar de desprezo, o empurrão e o tropeço, mas nunca a queda. Isso sou eu. Sou o piso forte das manhãs violentas da capital onde as guerras começam e terminam. Sou a fuligem, o ferro e a fossa. Eu bem sei, eu sou a cidade.

A cidade não lê, a cidade escreve. Sou a dona da história e mãe de todas as novidades. Sou a memória sem idade com marcas e cicatrizes. Eu sou a consciência humana confusa, prática e desordenada. Mas tudo isso eu sei, eu sou a cidade.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Dois textos curtos


7 pontos, 6 interrogações

Quem será esse que transpira fadigado e trôpego entre os espaços vazios de tempo? Quem é esse que sempre acaba por fazer exatamente aquilo que tenta arduamente combater todos dias e noites? Onde está aquela alma encantadora e íntegra que um dia soube ser fiel a si própria? Onde está o botão, a manivela ou o punhado de carne que precisa ser tocado para que as coisas voltem a fazer sentido e fluam como o sangue nas veias?
Um dia desses sonhei. Tive um sonho curioso. Sonhei que estava subindo um grande penhasco e quando me encontrava quase no topo via uma coruja. Uma coruja enorme a poucos metros de mim, que me observava bem acima da minha cabeça. Quando a ví parei a escalada e me protegi, temendo que a coruja me atacasse. Mas depois de um tempo percebi que a coruja não oferecia nenhum perigo. Ela apenas estava lá, tranquila, como uma sentinela.
Onde está essa sabedoria agora? Por que tenho tanto medo de tomar as decisões certas?


Notícias de um mundo novo

Quando acordei estava aqui. Assim, simples assim. Como se quase toda a minha vida houvesse sido um sonho. Como se trinta e três anos de vida coubessem numa noite de sono. Não houve perda de memória neste caso. Me lembro de muita coisa que vivi. Me lembro bem. Mas na minha mente aquelas experiências não foram “exatamente” minhas, mas de um outro sujeito. Me lembro de ter gostado de coisas que não gosto agora. Me lembro de ter acreditado em coisas que não acredito mais. Descobri que desejo coisas que não desejava antes. Quando olho no espelho não me reconheço. Vejo um sujeito mais vivo, mais belo, mais jovem e muito mais feliz. Talvez isso fique, para alguns, como um devaneio tolo, esquizofrênico. Mas insisto, trata-se de uma experiência e é real. É como a fábula da "borboleta e o fogo", você precisaria vivê-la pra saber do que eu estou falando.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Um bonde perdido e um rio morto

Como se descesse do bonde muito antes do destino.
Não.
Como se de repente caísse do bonde em movimento.
Não.
Como se perdesse o último bonde que o levaria de volta pra casa.
Ainda não é isso.
Como se perdesse o último bonde que o levaria pra qualquer lugar.
Foi essa a sensação.
Perder a última chance de mudar. Um medo, uma angústia, um desespero. Nem mesmo um pensamento de morte poderia lhe causar tanta dor.
Depois disso nada mais importa.

Construiu uma outra imagem: um barco pequeno que alguém atira num rio de vigorosa correnteza mas quando toca a água o rio seca. A fluência é algo raro em algumas vidas. Não somente, a consciência também. Duas raridades ansiadas. Coisas escassas que surgem na rota da vida e que geram a questão: esse sou eu? Coisas escassas que surgem na rota da vida e que desaparecem tão rapidamente quanto surgiram e nos deixam prostrados como uma criança esquecida e confusa. Na maior parte do tempo.

O problema do bonde é que ele nunca para. Deve-se correr pra alcançá-lo ou deixá-lo ainda em movimento. O problema do rio é que não existe correnteza acima. Existe?