quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
"Agora me foge a palavra"

As palavras fugiram. Quando vi a folha estava em branco sem nem um traço. Debaixo da mesa encontrei o "passado", caído sob os meus pés. No banheiro, já se jogando dentro da privada, eu ignorei a "vergonha". A "constância" estava longe demais, atrás do sol que se punha, deixei pra lá, amanhã ela volta. Dentro do armário onde guardo livros e filmes achei o "universo", sem entender o que ele estava fazendo ali. Caminhando pelo corredor me abaixei e peguei a "ansiedade", sozinha e imóvel. A "sorte" caiu sobre a minha cabeça quando eu descia a escada, acho que ela deu azar. Grudada na TV da sala eu tirei, cuidadosamente pra não rasgar, a "futilidades". Me dirigi para a cozinha e quando pegava uma garrafa de água na geladeira me assustei com a "atitude" debaixo do pote de manteiga. Foi assim por algumas horas, recolhendo palavras fujonas que nem me lembrava de tê-las escrito. Está sendo assim por todo o dia, recolhendo sentimentos perdidos que nem lembrava de tê-los sentido. Também estão sendo assim os últimos anos, recolhendo vidas que nem sabia que tinha vivido.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Augusto Boal
terça-feira, 14 de julho de 2009
Começando

A professora chama dois dos aspirantes ao palco a realizarem uma cena de improviso de 1 minuto. Eles se levantam atordoados e se colocam ao centro de frente para a platéia sem absoluta idéia do que irão fazer:
- Boa sorte. (Diz Fernando se voltando para Jéssica)
Jéssica não responde, apenas acena com a cabeça e começa a fazer uma espécie de relaxamanto corporal.
- Não vai me desejar boa sorte? ( Fernando pergunta, indignado)
- Boa sorte. (Jéssica responde com certa indiferença)
- Mas você só me desejou boa sorte porque eu reclamei, certo?
- Desculpa, mas foi isso sim. Podemos começar agora?
- Pensei que você fosse menos egoísta. Podemos começar sim.
- Você vai começar um diálogo sem propósito, em plena aula de improviso?
- Não. Podemos começar.
- Começa você.
- Por que eu? Começa você.
- Não estou nem um pouco inspirada...
- Por que eu não estou surpreso?
- Porque você sempre me achou uma idiota, nunca foi com a minha a cara.
- Eu não sou assim.
- Começa logo, vai.
- Também estou sem inspiração, diga qualquer coisa que eu acompanho. Uma nota.
- Você se acha, né?
- Me acho o quê?
- O fodão.
- Não vamos chegar a lugar nenhum, assim.
- É, não vamos.
Os aspirantes fazem silêncio, se entreolham, dão as mãos e se curvam cumprimentando a platéia. Aplausos. A professora chama então os próximos dois.
- Boa sorte. (Diz Fernando se voltando para Jéssica)
Jéssica não responde, apenas acena com a cabeça e começa a fazer uma espécie de relaxamanto corporal.
- Não vai me desejar boa sorte? ( Fernando pergunta, indignado)
- Boa sorte. (Jéssica responde com certa indiferença)
- Mas você só me desejou boa sorte porque eu reclamei, certo?
- Desculpa, mas foi isso sim. Podemos começar agora?
- Pensei que você fosse menos egoísta. Podemos começar sim.
- Você vai começar um diálogo sem propósito, em plena aula de improviso?
- Não. Podemos começar.
- Começa você.
- Por que eu? Começa você.
- Não estou nem um pouco inspirada...
- Por que eu não estou surpreso?
- Porque você sempre me achou uma idiota, nunca foi com a minha a cara.
- Eu não sou assim.
- Começa logo, vai.
- Também estou sem inspiração, diga qualquer coisa que eu acompanho. Uma nota.
- Você se acha, né?
- Me acho o quê?
- O fodão.
- Não vamos chegar a lugar nenhum, assim.
- É, não vamos.
Os aspirantes fazem silêncio, se entreolham, dão as mãos e se curvam cumprimentando a platéia. Aplausos. A professora chama então os próximos dois.
sábado, 27 de junho de 2009
Um laço de fita

Menina terrível, tinha convencido a irmã de levá-la embora para o Rio e tinha de ser naquele fim-de-semana. O plano era fingir que iria acompanhar Joana à estação mas embarcariam juntas. Por conta disso na noite anterior Vitória não conseguiu dormir. Levantou-se antes de todos, pegou sua bolsa pequena e colocou dentro da mala da irmã. A casa foi acordando aos poucos. O cheiro do café da mamãe, o bom dia do papai e Joana estava pronta para partir. O pai avisou de surpresa que também iria à estação. Quando ouviu o coração foi na boca. Ficou tensa e quase não conseguiu disfarçar o medo, a raiva e a excitação. A irmã quis cancelar a façanha com o olhar, mas não encontrou os olhos de Vitória.
A locomotiva que vinha de Porciúncula chegou fazendo seu esporro habitual. Na plataforma da estação havia um pai, uma mãe, a irmã e Vitória que não parava de roer as unhas. Era esperta a bichinha, ia acabar dando um jeito. Foi aí que Joana estava entrando no vagão e Vitória tomou a mala de sua mão dizendo que ia ajudar a colocá-la dentro do trem. Joana arregalou os olhos mas consentiu. O pai levantou os olhos mas não disse palavra. Lá dentro Joana já havia se acomodado e a caçula estava de pé no corredor conversando. Fingir era algo que Vitória fazia muito bem. Seguiram-se alguns apitos e Vitória não descia. Estava distraída a pobrezinha, se despedindo da irmã. O velho gritava por ela lá fora - Desce menina - e vendo que a menina não ia descer por conta própria, entrou na composição. Ao ver Sr. Francisco lá dentro Vitória pegou a correr. Foi uma loucura. Uma perseguição dentro daquele trem estreito. Quando chegaram no último vagão de passageiros Vitória deu um jeito de passar por debaixo das pernas do velho. A correria só acabou quando o bilheteiro parou Sr. Francisco e disse que o trem não podia mais esperar. Vendo que a menina não descia, desceu ele.
O trem partiu e da janela Vitória via os pais com um olhar de cachorro que mordeu o dono. O pai de costas caminhando sob a plataforma e a mãe chorando plantada confusa segurando um laço de fita que a filha miúda tinha deixado cair.
terça-feira, 23 de junho de 2009
É isso aí! Vida que segue.

Eles se reencontraram dez anos depois num supermercado na zona norte da cidade. Estavam no setor de higiene pessoal. Ele colocava no carrinho uma embalagem de oito rolos de papel higiênico e ela segurava um pacote de absorvente. Ficaram ali um diante do outro. Tirando pelos poucos fios de cabelos grisalhos ele não havia mudado muito. Já ela havia feito pender as voluptuosas macãs do rosto, deixando as bochechas um pouco flácidas. Conversaram sobre o passado e o presente. Riram, lamentaram e se parabenizaram. Descobriram que estavam morando perto um do outro. Falaram sobre o bairro, daí para a política. Não falaram do futuro. Quando qualquer coisa remetia a isso faziam silêncio. Como se fazer planos fosse proibido. Se despediram quando iam para o caixa. Ela tinha menos de dez volumes e ele um carrinho cheio de compras. Ficaram entaladas algumas perguntas. Teria sido melhor assim. Trocaram olhares e sorrisos, cada um na sua fila. Ela preferiu não comentar mas contou três garrafas de vodka no carrinho dele. Ele também não disse nada mas gostaria de vê-la novamente.
domingo, 21 de junho de 2009
Memória d'água

A tampa da panela passou raspando na cabeça dele, bateu na parede da cozinha e caiu no chão fazendo um estardalhaço. Filho da puta! Se eu te pego! - Jeremias corria para o quintal rindo, descalço. Deu a volta na casa e foi pra rua. Os irmãos na janela da sala riam dele. O pai na janela do quarto xingava ele balançando um metro de fio em uma das mãos. Mas Jeremias não podia mais ouvir suas vozes, estava longe socando os paralelepípedos da rua com as solas dos pés. Corria mesmo, como se fosse levantar voo. Gostava da sensação de velocidade e isso ficava mais emocionante depois de ter feito arte e estar ameaçado de uma surra. Ele ainda não sabia mas teria sensação parecida anos mais tarde na capital do país ao assistir as acrobacias aéreas de aviões de combate num ano de guerra.
Antes dele chegar na praça o céu desabou. Ao invés de irem pra dentro de suas casas as crianças saiam correndo pra rua pulando, gritando, girando e a chuva caindo. A cada trovoada a molecada fazia coro. Os menores ficaram ali sapateando nas poças d'água das calçadas mas os meninos mais velhos acharam de ir para o rio.
O rio Muriaé corta a cidade com força. É um rio largo, agressivo e traiçoeiro. Jeremias já viu morrerem afogados nele pelo menos meia dúzia de primos. Os corpos nunca foram encontrados. Ainda assim lá estavam os meninos brincando num poço perto da ponte quando ouviram um estrondo muito forte. Era maior que uma trovoada, como se um raio tivesse atingido alguma coisa. Pararam de repente, olharam em volta, olharam uns para os outros e tudo bem. Voltaram para as guerrinhas de esguicho e para os saltos do banco de areia. A festa só acabaria com o fim da chuva.
Quando Jeremias chegou em casa no fim da tarde havia um silêncio cabreiro. Ele só ouvia o barulho que fazia a goteira quando caía na soleira da porta da sala. Caminhava bem devagar do portão para a porta da cozinha que ficava nos fundos. Sua mãe devia estar na igreja com seus irmãos e seu pai... Eu disse que ia te pegar, seu moleque! - Jeremias não teve tempo de correr. Ouviu o fio zunir e logo estourar numa lanhada ardida em suas costas. Foi uma sequência de chicotadas enquanto ele caía, levantava, tropeçava, gritava e corria pra dentro de casa. Se trancou na despensa chorando alto. Precisava convencer o pai de que já havia apanhado o bastante. Passados alguns minutos e parecia que o havia convencido pois lá fora fazia silêncio. Lá dentro Jeremias soluçava fingido sentado no chão úmido, joelhos dobrados, braços cruzados sobre os joelhos, queixo apoiado sobre os braços e o olhar fixo no vazio das paredes sujas. Ficaria assim até a chegada da mãe, da igreja, cheia do Espírito Santo.
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